Retrospectiva 2025: IlhaMuseu avança na implementação da primeira ilha museu do Brasil
1 de janeiro de 2026

O ano de 2025 foi um período de avanço para a IlhaMuseu, marcando passos decisivos na concretização de seu objetivo de transformar a icônica Ilha das Cabras, em Ilhabela (SP), em um museu vivo a céu aberto. Fruto de uma parceria entre a UNESCO, a Fundação Florestal (FF), o Ministério Público Federal (MPF) e o Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), o projeto tem como missão principal proteger e celebrar a riqueza singular do patrimônio natural e cultural do Litoral Norte de São Paulo.
“A Ilha das Cabras foi ocupada de maneira irregular e permaneceu inacessível à população por cerca de três décadas. Então as autoridades públicas do estado de São Paulo decidiram pela recuperação desse espaço e pela criação de um equipamento cultural que devolvesse a Ilha das Cabras à população. A ideia de que a ilha possa se tornar um espaço de educação sobre a cultura e a biodiversidade destaca os valores essenciais da democracia e da inclusão, bem como o próprio caráter republicano do projeto, de que a ilha é um bem público pertencente a todos”, celebra Marlova Jovchelovitch Noleto, Diretora e Representante da UNESCO no Brasil.
Segundo ela, a aposta é em técnicas expográficas interativas e imersivas, que prometem redefinir o conceito tradicional de museu, evidenciando a indissociável relação entre cultura e natureza em cada trilha, paisagem e ambiente da ilha. Outro elemento central é o caráter participativo do projeto, que busca garantir uma experiência expográfica construída com o protagonismo e a participação direta das populações que formaram e ocupam hoje o litoral norte de São Paulo.
“A sentença inicial determinava que fosse tudo derrubado [na Ilha Das Cabras] e recuperado por meio de um Projeto de Recuperação Ambiental. Mas nós entendíamos que aquilo não seria suficiente para restabelecer toda aquela violação. Que o importante seria a gente poder comunicar, para toda a sociedade, tudo o que tinha acontecido e fazer o lugar irradiar valores opostos aos que ele sempre simbolizou. E aí veio a ideia de transformar num espaço de visitação pública, que está sendo construído a partir de muita discussão, com muitas pessoas”, completa Tadeu Badaró, Promotor de Justiça do Ministério Público de São Paulo.
2025: ano de avanços
O progresso de 2025 começou a se desenhar com a finalização de todos os projetos arquitetônicos e complementares – desde os planos estruturais e elétricos até os hidrossanitários e de paisagismo –, uma etapa fundamental que preparou o terreno para a fase de implementação física. Paralelamente, o compromisso da IlhaMuseu com a conservação se manifestou também na conclusão das obras de renaturalização do costão norte da Ilha das Cabras.
A busca por uma infraestrutura de excelência também avançou significativamente, com o lançamento e progresso de licitações para serviços essenciais, como o cabeamento submarino, reparos na piscina natural e a construção de píeres, garantindo tanto o acesso quanto a funcionalidade do futuro museu. “A sustentabilidade é um princípio fundamental da IlhaMuseu, que envolve não só espaços construtivos e museológicos, mas todo o seu entorno, incluindo a diversidade marinha e o patrimônio natural”, explica Isabel de Paula, Coordenadora do Setor de Cultura da UNESCO no Brasil.
Mas a IlhaMuseu não é apenas sobre estruturas físicas; é sobre a celebração da cultura e a conexão com a comunidade. A expografia, por exemplo, está em pleno progresso, com a realização de mais de 40 entrevistas realizadas em 2025 com lideranças comunitárias e o registro de expressões culturais vibrantes como o fandango e a capoeira, assegurando que a diversidade e a riqueza cultural do Litoral Norte estejam refletidas no acervo da IlhaMuseu.
Ainda no campo cultural, 2025 foi palco da exposição gratuita “Canoa Caiçara”, na Fundação Cultura de Ilhabela (Fundaci), um tributo à cultura local realizado em parceria com o Airbnb, apresentando fotografias de Luciano Candisani e réplicas dos mestres artesãos Manoel Neri Barbosa (Baeco) e José Carlos Nascimento. “Estou com 64 anos e tive a oportunidade de trabalhar com grandes mestres, foi quando eu me apaixonei por essas canoas. Hoje eu vejo a importância de reproduzir essas réplicas e tenho o maior orgulho em fazer parte da IlhaMuseu, onde vamos colocar esse conhecimento à disposição das futuras gerações”, destaca José Carlos Nascimento, mestre artesão que integra a exposição.
Expandindo seu alcance, a IlhaMuseu marcou também presença nas edições do Festival Internacional de Cinema Ambiental (Fica) realizadas na Cidade de Goiás e em Ilhabela, apresentando o documentário “Canoa caiçara: da tradição ao esporte”, novamente em parceria com o Airbnb.
“O Airbnb tem muito orgulho de apoiar iniciativas que valorizam a cultura local e o Projeto IlhaMuseu é uma oportunidade única para que viajantes descubram Ilhabela e a cultura caiçara de forma genuína. O Litoral Norte tem um papel fundamental no turismo do estado e na experiência por meio do Airbnb, e tenho certeza de que a exposição vai inspirar ainda mais pessoas a conhecer a região”, afirma Carla Comarella, Líder de Políticas Públicas do Airbnb.
Acervo
No que tange ao acervo, o ano foi enriquecido também com a entrega, pelo mestre artesão Roberto Ferrero, dos instrumentos tradicionais caiçaras – violas, rabecas e machetes – que integrarão a expografia. “O meu trabalho é frequentemente confundido com artesanato, mas eu não o considero assim. Os instrumentos que faço têm a função de manter o fandango vivo na região, então é a expressão de uma cultura viva. Nesse sentido, a proposta da IlhaMuseu de manter em seu acervo aspectos da cultura viva do Litoral Norte de São Paulo converge com meu trabalho em muitos pontos. Eu fiquei muito contente em poder colaborar com o projeto construindo e registrando os saberes envolvidos na fabricação desses instrumentos e espero que inspire muitos caiçaras da região a continuar mantendo nossa cultura caiçara viva”, destaca Ferrero.
Além disso, a gravação de 16 canções do repertório musical do Auto do Boi de Conchas de Ubatuba garantiu que essa manifestação cultural única também fosse imortalizada na expografia. “Obrigado à IlhaMuseu por essa oportunidade e por essa provocação que nos fez para fazermos esse documento sonoro tão importante para nosso coletivo”, conta Bado Todão, músico, artista, escritor e Mestre Proeiro da CRUMI- Comunidade Reinante Voga dos Mares de Iperoig, entidade que responde pelas manifestações do Boi de Conchas.
Valores
A relevância da IlhaMuseu transcendeu as fronteiras locais e nacionais, com o projeto demonstrando um profundo alinhamento com a Agenda 2030 da ONU, contribuindo diretamente para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 4.7 e 11.4. Além disso, a iniciativa colaborou para a implementação do Marco de Cooperação das Nações Unidas no Brasil (Eixo 4) e o Programa Global da UNESCO para 2024-2025, evidenciando seu papel estratégico no fortalecimento dos museus na sociedade.
Finalmente, a IlhaMuseu se destacou por seu compromisso com a igualdade de gênero, garantindo o protagonismo feminino em todas as suas ações, desde a composição da equipe até a realização de registros sobre Remeiras Caiçaras e a “ucharia” da Congada, que asseguram a representação das mulheres na construção deste legado.
Próximos passos
A finalização desta primeira parte da fase de obras abre caminho para os próximos estágios do projeto IlhaMuseu em 2026. Para isso, serão construídos os novos píeres, visando um acesso mais seguro e adequado à Ilha, e será realizada a readequação das áreas residenciais para as futuras estruturas museológicas que abrigarão as exposições e o acervo vivo do museu a partir do ano que vem.
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